ISSN 1519-7670 - Ano 15 - nº 605 - 31/8/2010
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“Nuvem” de documentos muda valores e rotinas no jornalismo investigativo
Postado por Carlos Castilho em 16/6/2010 às 16:52:16
 
 

O sonho de todo o repórter está começando a se tornar realidade. Nesta semana, os organizadores do DocumentCloud anunciaram que mais 20 jornais, universidades, centros de pesquisa e blogs jornalísticos aderiram ao projeto lançado no ano passado e que pretende ser a referência obrigatória para o trabalho investigativo online.

 

O DocumentCloud é uma espécie de megabanco de dados baseado na internet e de livre acesso aos participantes do projeto, não importa se jornais concorrentes ou não. Facsimile documento no DocumentcloudTodos os associados se comprometem a abrir seus arquivos permitindo o livre acesso a  reportagens, entrevistas, documentos e material gráfico, incluindo observações e anotações não publicadas.

 

Trata-se de uma idéia que pode revolucionar o jornalismo porque ela amplia o conceito de produção coletiva e colaborativa de informações, já que todo o material incluído no banco de dados do projeto é fornecido pelos seus usuários e associados. Mostra também em que medida os valores da profissão estão sendo mudados a partir do impacto das novas tecnologias.

 

Para se ter uma ideia do alcance do projeto, bastaria imaginar que O Globo, Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo e Valor Econômico pudessem bisbilhotar nos arquivos de cada um destes jornais. Parece utópico, mas é o que já estão fazendo os jornais The New York Times e The Washington Post, dois entre os maiores dos Estados Unidos e velhos concorrentes em matéria jornalistica.

 

Mas o DocumentCloud não é apenas um repositório de documentos. Ele funciona também como uma caixa de ferramentas para o jornalismo investigativo ao disponibilizar para seus usuários softwares de digitalização de documentos impressos, sistemas de classificação e cruzamento de arquivos, programas de extração de dados relevantes, de análise de arquivos e visualização imediata do material sem necessidade de sair da página visitada (sistema embed).

 

Por enquanto, o projeto está na fase beta e limitado a jornalistas experientes e de reconhecida credibilidade. Só eles podem adicionar documentos ao banco de dados, mas quando o DocumentCloud entrar em fase operacional, qualquer pessoa ou entidade associada poderá incorporar material à “nuvem” de arquivos. Na fase beta um programa já pode ser utilizado, mas ainda apresenta muitos problemas, ou bugs, que são corrigidos com a ajuda dos usuários.

 

Os criadores do projeto são jornalistas vinculados ao The New York Times e ao site ProPublica, uma entidade sem fins lucrativos que produz reportagens investigativas de caráter social. Tanto o jornal como o site não participam da diretoria do DocumentCloud, mas são associados ao projeto junto com os jornais Chicago Tribune, Dallas Morning, Voice of San Diego, San Petersburg Times, mais o telejornal PBS NewsHour, o portal de noticias MSNBC, as revistas New Yorker, Atlantic e Mother Jones, bem como o Centro de Jornalismo Investigativo da City University London e o Centro da Reportagens Investigativas/ California Watch, da Universidade do Sul da Califórnia.

 

Mais importante do que a inovadora tecnologia empregada para desenvolver o projeto é a mudança de rotinas, comportamentos e valores que ele sinaliza na atividade jornalística. Ele mostra que apesar da lentidão, mudanças estão acontecendo na área da publicação de notícias e quase todas elas são impulsionadas por profissionais que resolveram apostar na criatividade.

 

O DocumentCloud tem ainda um longo caminho pela frente para provar a eficiência de sua tecnologia, sua capacidade de atrair parceiros na imprensa e principalmente sua sustentabilidade financeira no médio prazo. 

 

Mas ficou claro que os jornalistas resolveram não esperar mais pelas empresas para reinventar sua profissão e seus valores. Também parecem dispostos a abrir mão do individualismo e do espírito de competição que marcaram a rotina das redações durante mais de um século.
Comentários (5)
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Cristiana  Castro, Advogada (Rio de Janeiro/RJ)
Enviado em 26/6/2010 às 02:50:28

Castilho, eu não entendi uma coisa. Funcionaria como uma " Agência" que todos vc pudessem acassar e cada um fazendo a sua leitura e pesquisando de acordo com as suas necessidades? Se for isso, eu não acredito, é brilhante, os jornalistas ficam livres e, eu não sei se eu entendi bem o Ibsen,mas se todo mundo colabora com o banco de dados, ele não tem como ser controlado pq aí sim, se o todo não engolir a parte, cada grupo estará vinculado ao seu jornalista, ou seja, o que o fulano recebe, o que o beltrano recebe... qdo é repassado, já passou pelo crivo do jornalista "responsável". É bemlegal pq coloca o jornalismo como função social, acaba com aquela imbecilidade competitiva do " furo" que não serve de nada a sociedade. Jornalistas não tem o direito de competir, eles são aliados, desde sempre. Castilho, vc arrasa. Eu tenho inveja de vc. Ibsen, vc pegou o link sobre a O.D.?
Thanius  Scoralick Sarchis, Estudante de jornalismo (Juiz de Fora/MG)
Enviado em 22/6/2010 às 00:50:42

Genial! A ideia é linda, vamos aguardar para que fique disponível para nós e que os grandes da mídia queiram aderir a essa novidade. Se irem contra isso, bom, estarão indo contra o futuro, e afundarão de vez, como estão tentando fazer Folha e Estadão, ao fazer suas reformas, com textos menores, menos analíticos e cheios de erros. Estão cada vez mais parecidos com jornais populares, e isto não é discurso, posso provar facilmente.
Miro  Junior, Analista (Sao Paulo/SP)
Enviado em 20/6/2010 às 09:16:43

Quem sabe os jornalistas da Folha passem a consultar o que já escreveram antes de publicar bobagens que esquecem o que disseram no passado, como fez recentemente Josias de Souza no caso FSP, ou não publiquem coisas como novidade sendo que já escreveram o mesmo artigo no passado como Jabor há um tempo......
Ibsen  Marques, Técnico em Eletrônica (Caçapava/SP)
Enviado em 18/6/2010 às 15:20:26

Castilho, na fase em que ocorrer a abertura para a postagem de artigos como se daria a separação do joio do trigo? Haverá a separação ou caberá tudo como num balaio de gato? Essa solução não acabaria provocando excesso de concentração da informação. E isso, ao contrário do que pensamos, não provocaria uma monopolização da informação? Na verdade eu já tenho uma enorme preocupação com relação ao Google e sua concentração da base de informação.
Comentário do Autor
Oi Ibsen,
O prejeto do DocumentCloud é um pouco diferente na medida em que ele entra no conceito de nuvem, ou seja, conjunto de arquivos disponíveis na rede aberta. Não sabemos ainda qual será o grau de liberdade de acesso, mas os organizadores dizem que será "amplo". O risco de concentração e monópolio existe e deve ser considerado sério, levando em conta o fenômeno Google, como você mencionou. O problema é que fica cada vez mais claro que os futuros cidadãos digitais terão que ser bem mais proativos do que nós. Da mesma forma que as empresas estão criando formas colaborativas de produção, nós teremos que desenvolver mecanismos coletivos de defensa de nossos interesses. Acho que estamos condenados a também criar "nuvens" de informações. Abraço Castilho
Emerson  Mathias, economista (sao paulo/SP)
Enviado em 17/6/2010 às 15:22:07

Talvez seja mais uma iniciativa do "american way of business" de reduzir custos e comunizar as areas de documentacao de varios jornais num unico centro (ou unica empresa tercerizada). Mais enxugamento de pessoal nos jornais e orgaos de midia que demandam esses servicos. E assim, a cada corte e tercerizacao de servicos, segue-se a "evolucao" rumo a total convergencia das midias. No lugar do "individualismo e do espírito de competição" podem surgir o corporativismo e o jornalismo instrumental, com materias padronizadas em todos os veiculos com base numa unica e mesma fonte de documentos. Esse estado "utopico" do jornalismo ainda deixaria algum espaco nao-utopico, pratico e ligado a realidade dos fatos? Uma contra-utopia seria ainda possivel para o exercicio da profissao que antes requeria "apenas" o talento de pensar, contextualizar e teclar numa maquina de escrever? Na era do "copy/paste" a atividade jornalistica caminha a passos largos para sua robotizacao, como ja acontece na internet com o Google News. Boa sorte aos futuros jornalistas!
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Carlos Castilho
* Ex-repórter - revista Fatos & Fotos
* Ex-redator internacional - JB
* Ex-editor internacional - Opinião
* Ex-editor telejornais - TV Globo
* Ex-chefe do escritório da TV GLobo em Londres
* Ex-redator - Cadernos do Terceiro  do Terceiro Mundo;
* Ex-correspondente latino americano  do jornal Público/Lisboa
* Ex-editor internacional do JB;
* Ex-editor associado do The World Paper/ Boston;
* Ex-editor latino-americano da agência IPS - Costa Rica;
* Ex-consultor de advocacy na mídia para a União Européia;
* Professor de Jornalismo Online , Faculdades ASSESC (Florianópolis);
* Professor de Projetos Multimídia (pós-graduação latu senso) no CESUSC / Florianópolis;
* Professor de Jornalismo Online (curso a distância) no Knight Center, Universidade do Texas; 
* Autor do capítulo Webjornalismo no livro No Próximo Bloco - Editora PUC/Rio -2005.
* Autor do prefácio e tradução do livro Jornalismo 2.0, de Mark Briggs, publicado pelo Centro Knight, da Universidade do Texas.
* Mestre em Mídia e Conhecimento pelo EGC/UFSC. 
-Reside em Florianópolis / SC
email ccastilho@gmail.com


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